
Se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo! (Jo 13,8b)
É um diálogo gostos entre Jesus e Pedro. Parece até um doce bate-boca amigável entre dois amigos que se estimam reciprocamente, que se amam. Cada qual quer “servir e amar”. Jesus não se deixa desanimar nem se sente ofendido pela recusa de Pedro, somente lhe anuncia as consequências que derivam dessa sua cabeça dura e de não querer se deixar lavar os pés: “Não terás parte com ele”. Que significa isto na linguagem de Jesus e bíblica? O tomar parte significa ser admitido à vida íntima do outro. Jesus não quer ser amigo de qualquer jeito nem estar com os seus discípulos, especialmente com aquele que deverá assumir o seu “papel”, de uma forma superficial, mas sim partilhar e codividir a vida em plenitude.
Jesus e Pedro parecem esquecer por completo o momento solene – dramático- que estão vivendo para se fixarem em algo de fundamental, o relacionamento “eu-tu”. Um relacionamento não impessoal e grupal, mas sim personalizado e segredo do amor. É encontro, é reciprocidade, é encontro de coração, de desejo, de intenções e de utopia do reino. É o momento em que os desejos de Jesus se identificam com os de Pedro e vice-versa. Pedro é chamado a se definir, a ele cabe a escolha: ou estar com Jesus e viver como ele deseja, ou estar de outro lado, numa comunhão com Cristo superficial, sem ser chamado a assumir o papel de corresponsável do reino.
Jesus sabe que as suas horas estão contadas. Trata-se do desfecho final de todo o seu ministério, de sua passagem terrestre. Não há dúvida que, dentro do coração de Jesus, há um questionamento: como a minha obra poderá continuar, a quem deixar esta herança, quem vou envolver no projeto do Pai, iniciado, mas não concluído? Pedro é a pessoa em quem Cristo pode depositar sua confiança.
Diante dessa recusa de Jesus, Pedro não tem outra saída a não ser rever a sua maneira de pensar. Há uma rápida conversão, uma mudança de atitude e de pensamentos. É o revestir-se de Cristo e ser como ele. A confissão de Pedro é algo de tocante, nós nos sentimos todos representados por ele. Diante da insistência do amor, mais cedo ou mais tarde, todos nós nos vemos obrigados a entregar-nos ao amor. Ao amor ninguém é capaz de resistir por muito tempo. É incalculável o esforço que deve fazer uma pessoa para “odiar”, é mais fácil amar e deixar-se amar.
Simão Pedro disse: “Então, Senhor não só os pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13,9).
Pedro, com essas palavras, manifesta o desejo de ser “todo de Cristo” Provavelmente não entendeu por completo as palavras de Jesus, a inserção na vida participativa de Jesus, na herança, mas o que ele entendeu é que não pode ficar de fora da vida do seu mestre. Pode até ser que Pedro imagine que esse gesto de lavar “os pés” seja como que um novo gesto e rito de purificação. Não importa o que ele possa pensar, o que importa é compreender como Pedro, porque deseja ser de Cristo, aceita tudo o que lhe é proposto.
A entrega total ao gesto de lavar de Jesus “mãos, cabeça, tudo”, é entrega a Cristo de todo o ser, espírito-corpo. No amor não há divisão, é totalidade. Se não houver totalidade, não há amor. Tudo em Jesus é partilhado: vida, amor, corpo, sangue, divindade, humanidade. Cristo não guarda nada para si, mas se doa totalmente. Somente na escola de Jesus é possível compreender o segredo do verdadeiro amor. Somos chamados a fazer comunidade com Cristo deixando que ele aja, faça e especialmente permitindo que todo o nosso ser seja “puro”, isto é, em consonância com o projeto do reino, sem pecado, sem resistência e sem desamor e interesse.
Frei Patrício Sciadini, ocd